Lugar de mulher é onde ela quiser – Mulheres que marcaram a literatura

Negra, moradora de periferia e catadora de papel, Carolina Maria de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes escritoras do país. 

Nascida em Sacramento, Minas Gerais, em 1941, teve uma infância sofrida, marcada pela pobreza e pela violência. Ao contrário dos pais, Carolina começou a frequentar a escola aos 7 anos de idade e pode aprender a ler e a escrever. Em 1934, após a morte de sua mãe, Carolina mudou-se para São Paulo e construiu, sozinha, sua própria casa, feita de madeira, lata, papelão e qualquer outra coisa que encontrasse e pudesse utilizar. 

Há mais de uma década em São Paulo, em 1947, Carolina mudou-se para a Favela do Canindé, onde passou boa parte de sua vida. Ali, deu a luz aos seus três filhos. 

Ao mesmo tempo em que trabalhava como catadora para sustentar a si mesma e aos filhos, Carolina registrava nos cadernos que catava no lixo o cotidiano da favela onde morava. Ao todo, ela tinha cerca de 20 diários. Um deles deu origem a um dos livros mais profundos da literatura brasileira: Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960. 

Desde sua publicação, o livro já vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida para catorze línguas, tornando-se um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior, o que possibilitou que a autora tivesse uma vida mais tranquila ao lado dos filhos. Devido às traições, ciúmes e agressões que sofreu dos companheiros que teve, Carolina nunca se casou. 

A obra e a vida de Carolina Maria de Jesus, até hoje servem como referência para outras escritoras brasileiras. Seu trabalho despertou o interesse de inúmeros autores, que dedicaram-se a escrever sobre ela. 

Uma mulher à frente do seu tempo, Clarice Lispector, também se destaca no mundo da literatura. Nascida em Chechelnyk, Ucrânia, em 1920, naturalizou-se brasileira e é considerada uma das escritoras mais importantes do país no século 20. 

Seus pais migraram para o Brasil quando Clarice era bem pequena. Inicialmente instalada no Nordeste do país, a família de Clarice mudou-se para o Rio de Janeiro pouco tempo após a morte de sua mães, em meados de 1928. 

Aos 19 anos, Clarice Lispector ingressou na faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, formando-se em 1943. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal “A Noite”. Após um período morando fora do Brasil, Clarice publicou seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”. No ano seguinte, em 1945, a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. Alguns anos mais tarde, também foi agraciada com um prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto de sua obra. 

Uma das figuras mais influentes da literatura brasileira e do Modernismo, Clarice foi incluída, pela crítica especializada, na lista dos principais escritores brasileiros do século XX e é uma das principais influências da nova geração. 

Outro grande nome da literatura brasileira é Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Nascida na cidade de Goiás, em 1889, Cora iniciou sua carreira aos 14 anos de idade, com o conto Tragédia na Roça, publicado no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás

Poeta e contista brasileira de prestígio, Cora se tornou um dos marcos da nossa literatura. Boa parte de sua vida, Cora passou longe de sua terra natal, vivendo em São Paulo, ao lado do marido. Para conseguir sustentar sua família após a morte do companheiro, Cora precisou vender livros, doces e outros produtos q ue ela mesma produzia. 

Apesar da pouca escolaridade, Cora escrevia com uma qualidade literária jamais vista, inspirada pelos elementos folclóricos que faziam parte do seu cotidiano. 

Seu primeiro livro,  Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, aos 76 anos e despontou como detentora de uma das maiores expressividades da poesia moderna. Em 1982, mesmo tendo estudado somente até o equivalente ao segundo ano do atual Ensino Fundamental, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás. No ano seguinte, foi a vencedora do concurso Intelectual do Ano do Troféu Juca Pato, tornando-se a primeira mulher a receber tal honraria. Em 1984, foi eleita Símbolo da Mulher Trabalhadora Rural pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

Após a morte da poeta, em 1985, amigos e parentes se reuniram e criaram a Associação Casa de Cora Coralina, entidade de direito privado e sem fins lucrativos que mantém o Museu Casa de Cora Coralina. De acordo com o seu estatuto, a sua finalidade é “projetar, executar, colaborar e incentivar atividades culturais, artísticas, educacionais, ambientais, visando, sobretudo, a valorização da identidade sociocultural do povo goiano, bem como preservar a memória e divulgar a vida e a obra de Cora Coralina”.

Continuando com a poesia, temos como exemplo Elisa Lucinda dos Campos Gomes, ou somente Elisa Lucinda. Natural de Cariacica, Espírito Santo, Elisa Lucinda nasceu em 1958 e atua também como jornalista, cantora e atriz. 

Filha de professor, Elisa interessou-se desde cedo pela poesia. Graduou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo na década de 1980. Seguindo o sonho de seguir a carreira de atriz, Elisa mudou-se para o Rio de Janeiro em 1986. Lá, atuou em diversas peças de teatro, novela e filmes. 

Fundou a Casa-Poema, uma instituição sócio-educativa que busca capacitar profissionais de diversas áreas, desenvolvendo sua capacidade de expressão e formação cidadã por meio da poesia falada. Em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, elisa desenvolve o projeto Palavra de Polícia,  “Outras armas”, que busca alinhar os policiais aos princípios dos direitos humanos por meio da poesia falada, transformando antigos modos operacionais em relação ao gênero e à raça. 

Até hoje, Elisa tem 14 livros publicados, além de uma série de trabalhos na música e no teatro. Por todas os projetos criados e por sua escrita, é considerada a artista da sua geração que mais populariza a poesia. 

Outra grande escritora brasileira foi Ana Maria Machado. Natural do Rio de Janeiro, nasceu em 1941. Formada em Letras pela Universidade do Brasil, também atuou como professora, jornalista e pintora. 

Ganhadora do Prêmio Jabuti de Literatura em 1978, fundou a Malasartes, primeira livraria infantil do Brasil, e publicou mais de 40 livros na década de 1980. Em 1981, recebeu o prêmio Casa de las Américas, em Cuba. 

No início dos anos 2000, alcançou reconhecimento mundial quando recebeu o Prêmio Hans Chistian Andersen, o mais importante da literatura infantil. No mesmo ano, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural. Segundo a própria Ana Maria, já vendeu cerca de 19 milhões de exemplares de suas publicações e a ocupação da 1ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, da qual já foi presidente. 

Mais uma representante de Minas, Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte, em 1946. De origem humilde, migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970. Dos 9 irmãos, foi a primeira a concluir o ensino superior, graduando-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Abordando temas como discriminação racial, de gênero e de classe, iniciou sua carreira na literatura em 1990, quando começou a publicar seus contos e poemas na série intitulada Cadernos Negros. 

Em 2018, a escritora recebeu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra. Militante do movimento negro, Conceição foi a grande homenageada da Bienal do Livro de Contagem, em 2019. 

Por último, mas não menos importante, temos a história de Maria Beatriz Nascimento, que foi uma historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres. Natural de Aracaju, capital do estado de Sergipe, nasceu em 1942, sendo a segunda filha mais nova de dez irmãos. Aos sete anos de idade, migrou com a família para a cidade do Rio de Janeiro, onde iniciou seus estudos. 

Entre 1968 e 1971, cursou História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Já formada e lecionando na rede estadual, Maria Beatriz começou sua militância, participando e propondo discussões raciais, em especial no meio acadêmico. Ajudou a criar o Grupo de Trabalho André Rebouças, em 1974, na Universidade Federal Fluminense (UFF), e o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras, em 1975. Participou como conferencista de diversos encontros, conferências e simpósios, falando sobre seus incômodos quanto ao espaço universitário falar do negro apenas como o escravo, como se as pessoas negras tivessem participado da história apenas como mão-de-obra compulsória e sem direito à escolha. 

Infelizmente, Maria Beatriz foi mais uma vítima da covardia e violência. Em 1995, aconselhou uma amiga a se separar após várias reclamações de abusos e violência doméstica, e foi foi brutalmente assassinada por Antônio Jorge Amorim Viana, ex companheiro de sua amiga. 

A grande obra de Beatriz é o documentário Ôri, de 1989. Escrito e narrado por ela, o trabalho conta trajetória dos movimentos negros no Brasil e, em parte, a história da própria autora. Ainda hoje, a luz de Maria Beatriz, bem como a de todas as outras, segue brilhando e sua obra ainda é atual e vital para os estudos raciais no nosso país.

Assessoria de Comunicação 

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